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  • Writer's pictureGabriel Toueg

O conflito entre Israel e o Hamas e os malucos de plantão – e de como é difícil ser moderado

Há malucos que querem fazer crer que não há um povo palestino, como Flavio Flores da Cunha Bierrenbach, em seu texto,“Palestina”, publicado há algumas semanas na Folha de S.Paulo. Escreve o autor, ministro aposentado do Superior Tribunal Militar:

Não existe povo palestino. A Palestina é uma região geográfica, assim como a Patagônia ou o Pantanal.

Mereceu, como teria merecido um tapa na cara dos argumentos, a resposta que recebeu de Salem Nasser, professor de Direito Internacional da DIREITO GV que escreveu, também na Folha de S.Paulo, “O cadáver da Palestina”:

Trata-se de um tipo especial de racismo, que não se basta com representar a sua vítima como torpe, vil, traiçoeira e naturalmente orientada para a violência.

Também em resposta a Bierrenbach, Guilherme Casarões, professor de Relações Internacionais das Faculdades Rio Branco e do MBA da FGV (e, devo dizer, pelo que venho acompanhando, um dos comentaristas mais equilibrados nessa questão, naturalmente mais equilibrado que Nasser), escreveu, no Observatório da Imprensa, o texto “Palestina, sim!”, em que lembra:

Devemos frisar que mesmo Israel reconhece a Autoridade Palestina, seja como interlocutor nas negociações de paz ou como entidade representativa dos árabes (palestinos!) que habitam a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.

E há malucos, igualmente malucos, que querem fazer crer que a remoção do Estado de Israel do mapa, como já advogou um ex-presidente iraniano, seria a solução para o problema do Oriente Médio que ele claramente desconhece. É o caso de Ricardo Melo, em seu texto publicado hoje na mesma Folha, “Israel é aberração; os judeus, não”:

Inexiste solução para a crise do Oriente Médio que não inclua o fim do Estado de Israel. A afirmação é comprovada pela própria história.

Ironicamente, a solução de Ricardo Melo, que “foi um dos principais dirigentes do movimento estudantil ‘Liberdade e Luta’ (‘Libelu’), de orientação trotskista”, vai na mesma direção do que defende a extrema direita israelense, em uníssono capaz de fazer corar (de raiva e vergonha) os moderados:

A saída civilizada seria a construção de um Estado único onde árabes e judeus convivam em harmonia.

Em seu blog no Estadão, Guga Chacra, correspondente do jornal em Nova York, escreveu um “Guia para entender o conflito Israel-Hamas sem precisar ler extremistas”, no qual se refere aos textos de Bierrenbach e de Melo, com sugestões bem simples. Vale a pena ler.

Dias atrás andei pensando em escrever um texto sobre a dificuldade de ser (ou tentar ser) um moderado em meio a tantos extremos – dos dois lados, como se observa nos artigos publicados pela Folha de S.Paulo relatados aqui. Confesso que de tão difícil, até esse texto me fugiu das mãos e da paciência que eu costumo ter para, didática e calmamente, explicar um conflito que não se resume em sugerir a inexistência de um lado ou o extermínio do outro.

Fico, de novo, com o Chacra, que há alguns dias publicou, em seu blog, um texto em que resume o meu sentimento. Caros extremistas, suas opiniões não vão fazer o cenário atual mudar. Israel não deixará de existir e os palestinos não passarão a ser uma ficção. A isso tomo a liberdade de acrescentar o que tenho dito e escrito Facebook afora: suas opiniões não apenas são inócuas na realidade do conflito como ajudam a importar para cá um sentimento de antagonismo entre comunidades que, quer vocês gostem, quer não, aprenderam a conviver bem. Que tal tomar o mesmo caminho?

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